Atentado ao STF: Falhas na Segurança, Ato Terrorista e o Papel das Redes Sociais
- Panorama da Semana

- 14 de nov. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 22 de abr. de 2025

Especialistas em segurança consultados pela Gazeta do Povo destacaram as falhas estruturais do sistema de inteligência brasileiro após o atentado ocorrido em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) na noite de quarta-feira (13). O responsável pelas explosões, Francisco Wanderley Luiz, que morreu ao detonar um dos artefatos, havia postado mensagens nas redes sociais sugerindo que estava se preparando para o ataque. De acordo com a Polícia Federal, ele também tinha acesso a grandes quantidades de material explosivo, o que foi encontrado em uma casa e em um trailer alugados por ele.
Em uma das postagens em seu Facebook, Luiz se despediu e fez declarações à Polícia Federal, chamando sua ação de “revolução para libertar o país”, com a data prevista para ocorrer entre 13 e 16 de novembro. Marcelo Almeida, especialista em segurança pública, enfatizou que o incidente revela a necessidade urgente de aprimoramento nas forças de segurança envolvidas com inteligência no Brasil. "Esse homem conseguiu mobilizar muitos recursos para executar o que fez. Se ninguém percebeu isso ao longo do processo, houve uma falha grave", afirmou. Para ele, se Luiz tivesse experiência ou treinamento para ações violentas, o ataque poderia ter tido consequências ainda mais graves.
Além das postagens nas redes sociais, Almeida levantou a questão de como Luiz obteve os materiais explosivos. “Mesmo que tenha sido comprado como fogos de artifício, não sabemos se era só isso, mas a quantidade parecia considerável. Como ele conseguiu adquirir sem que isso fosse notado?” questionou. Se os materiais foram comprados legalmente, Almeida ressaltou que deve haver registros dessas aquisições com CPF, o que está sendo investigado. Ele considerou grave o fato de Luiz ter conseguido mobilizar tanto material sem despertar suspeitas. “Isso aponta uma falha significativa na segurança”.
Sérgio Leonardo Gomes, ex-agente de inteligência federal, compartilhou a mesma preocupação. "Se ele já estava planejando isso há tanto tempo, como ninguém percebeu as compras de material e os preparativos? São questões que deveriam ter alertado a segurança antecipadamente", comentou. Sobre as mensagens nas redes sociais de Luiz, Gomes destacou a importância de um trabalho preventivo. "Infelizmente, publicações assim acontecem com frequência e menos de 1% delas realmente representam um risco. Não estou dizendo que houve falhas nesse caso específico, mas o Brasil ainda não está preparado para tratar esse tipo de prevenção de forma eficaz", afirmou.
O advogado Alex Erno Breunig, especialista em segurança pública e coronel da reserva da Polícia Militar, explicou que explosões como a registrada em Brasília são difíceis de prever. "Para que uma investigação ou monitoramento seja iniciado, é preciso que uma mensagem em rede social chegue ao conhecimento das autoridades, seja por denúncia ou monitoramento. Outra alternativa seria se a rede social identificasse o risco e repassasse para as autoridades", disse. Nenhuma dessas situações ocorreu neste caso.
O secretário de Segurança do Distrito Federal, Sandro Avelar, delegado da Polícia Federal, defendeu à CNN que não identificou falhas diretas na segurança, mas afirmou que as investigações estão em andamento tanto no DF quanto em Santa Catarina, de onde Luiz era originário. Avelar destacou que o autor do atentado morava no Distrito Federal há três meses e havia visitado o STF em agosto, publicando fotos com mensagens insinuando a vulnerabilidade do local. Ele também defendeu o monitoramento das redes sociais como uma medida preventiva para identificar crimes em fase de planejamento, algo que será facilitado com a criação do departamento antiterrorismo no DF.
"Essas mensagens postadas por Francisco Luiz nos preocupam, mas é difícil determinar se representam uma ameaça real ou se são apenas falácias. Nossa obrigação é investigar tudo que chega ao nosso conhecimento. Pedimos à população que denuncie qualquer perfil suspeito", explicou Avelar.
No entanto, Gomes apontou que, além do monitoramento das redes sociais, é essencial realizar um levantamento contínuo de perfis de pessoas potencialmente perigosas, incluindo estudantes, registros policiais e denúncias. Breunig também comentou as dificuldades de monitoramento no local do ataque, com a limitação de estrutura das polícias para vigiar as redes sociais abertas. Segundo ele, não se pode colocar toda a responsabilidade sobre as autoridades de segurança pública, pois existem limitações nas ferramentas oferecidas pelo Estado.
“A grande dificuldade é equilibrar a segurança pública com os direitos à privacidade, intimidade e livre manifestação de opiniões. O Estado precisa fornecer melhores recursos para monitorar redes sociais abertas, controlar o acesso a explosivos e reforçar o policiamento. Com a estrutura adequada, o monitoramento poderia ser mais eficaz, mas, mesmo assim, não está imune a falhas”, concluiu Breunig, ressaltando que embora existam métodos para reduzir os riscos, a eficácia das medidas ainda depende de uma estrutura mais robusta.
Ajudam na compreensão do sistema jurídico e das decisões judiciais.
A investigação sobre o atentado em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) vai entrevistar pessoas próximas ao autor das explosões.
A Polícia Federal (PF) iniciou um inquérito para tratar o incidente em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) como um "ato terrorista" e uma tentativa de derrubada violenta do Estado Democrático de Direito. O secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Sandro Avelar, informou que familiares e pessoas próximas a Francisco Luiz serão ouvidas para investigar se ele agiu sozinho ou se houve apoio de outras pessoas.
Por outro lado, o especialista Sérgio Leonardo Gomes acredita que a explosão em Brasília foi um ato isolado, cometido por uma pessoa possivelmente desequilibrada, sem treinamento ou experiência em atentados. Gomes destaca a importância de aprofundar as investigações, mas alerta para a cautela em relação àquelas pessoas que não tiveram envolvimento direto com o caso e que possam ser injustamente associadas ao autor. "Se alguém estava em algum grupo nas redes sociais com o Francisco Luiz, pode acabar sendo alvo de investigação. Esperamos que o governo não use esse caso isolado para iniciar uma nova caça às bruxas", afirmou.
Sandro Avelar também confirmou que foram encontrados mais explosivos na residência de Luiz, sendo que alguns deles explodiram após a chegada dos policiais federais, durante a varredura com um robô. Explosivos também foram localizados em um trailer utilizado pelo autor e em um carro estacionado no anexo 4 da Câmara dos Deputados, próximo à Praça dos Três Poderes, o que indica um planejamento minucioso e prolongado. "Nem sempre a polícia consegue se antecipar. A Polícia Federal possui uma unidade especializada nisso, e o governador Ibaneis Rocha determinou a criação de uma divisão antiterrorismo na Polícia Civil do Distrito Federal para reforçar o trabalho de inteligência", afirmou o secretário.
Francisco Wanderley Luiz, que se candidatou a vereador pelo PL em Rio do Sul (SC) em 2020, mas não foi eleito, tinha postado mensagens em suas redes sociais não apenas contra o presidente Jair Bolsonaro (PL), mas também contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sugerindo que ambos deveriam se afastar da política para acabar com a polarização. Na noite de quarta-feira (13), por volta das 22h, a Meta removeu o perfil de Luiz do Facebook, alegando que não permite o uso da plataforma para incitar ou promover atos violentos. Foi por meio dessa rede social que Luiz havia publicado várias mensagens antecipando seus planos de cometer os atentados na capital federal.
O inquérito aberto pela Polícia Federal (PF) para apurar o atentado em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) será conduzido sob sigilo
Em uma coletiva de imprensa nesta manhã, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que o inquérito vai tramitar sob sigilo. As investigações correm em duas frentes: ato terrorista e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Por essas hipóteses o inquérito foi submetido ao STF, onde está sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
“Há indícios de um planejamento de longo prazo, essa pessoa esteve em outras oportunidades em Brasília e segundo relatos de familiares estava em Brasília no início do ano de 2023. Ainda é cedo para dizer se teve participação direta nos atos de 8 de janeiro, isso a investigação apontará”, descreveu, sem falar em possíveis falhas na segurança.
“Essa pessoa portava consigo um extintor de incêndio carregado com combustível que simula um lança-chamas, o que reitera a gravidade do que encontramos [...] Não sabemos ainda a motivação do crime, estamos trabalhando com ação terrorista e de abolição violenta do estado democrático de direito”.
O diretor da Polícia Federal (PF) mencionou que o atentado pode ter vínculos com outras investigações em andamento, embora não tenha revelado detalhes sobre quais seriam essas apurações. Ele também destacou a necessidade de regulamentação das redes sociais para aprimorar a eficácia das ações investigativas preventivas.
Em evento realizado na manhã desta quinta-feira, o ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, reforçou a importância de regulamentar as plataformas digitais. Ele afirmou que o ataque não é um incidente isolado, mencionando o contexto mais amplo relacionado ao "gabinete do ódio", que alimentou discursos de ódio contra as instituições, incluindo o STF e seus ministros, além de suas famílias. Moraes ressaltou que esse ambiente de polarização foi crescendo ao longo do tempo, ampliando os ataques às instituições democráticas.
Ajudam na compreensão do sistema jurídico e das decisões judiciais.













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